DR. PAULO ROBERTO SILVEIRA

VIVO DE AJUDAR AS PESSOAS  A AMENIZAREM  OS SOFRIMENTOS  DO CORPO E DA ALMA.

Textos

MISTÉRIO NA TERÇA FEIRA GORDA ( A DAMA DE PRETO)
MISTÉRIO NA TERÇA FEIRA GORDA ( A DANA DE PRETO)

Era fevereiro de 1976, e eu não havia completado ainda os vinte e sete anos de idade. Depois de muito tempo sem ir à minha querida São Sebastião do Campo Verde, no sul de Minas, voltei lá, na casa de meus avós, tios e primos. Naquela época, a cidade era tranquila, mais conhecida mesmo por sua água mineral, a comida típica, e pelo povo acolhedor e sempre simpático. Mas no carnaval essa tranquilidade toda era temporariamente suspensa e a festança colocava tudo em polvorosa. Vinha gente de todo lado, até do Rio de Janeiro vinham turistas, pra três dias de folia que eram tão bons nos clubes da cidade, como no carnaval de rua.  Já logo na primeira noite, eu tinha bebido todas e estava num cordão de bloco de sujos, quando avistei uma mulher de estranha beleza. Parada num canto da praça, a farta cabeleira negra, ela vestia uma fantasia “dark”  — minissaia, blusa e botas pretas, maquiagem sombria, o baton também negro — que era a moldura perfeita para a sua pele clara, que já de longe se adivinhava delicada e suave ao toque. Tudo isso me veio à mente num átimo, e mal esses pensamentos se completaram, o olhar dela fixou-se em mim, e julguei vê-la esboçar-me um sorriso que não se completou. Fiquei como que hipnotizado por aquele olhar, que ela insistiu em manter fixo em mim, até que eu tivesse despertado novamente, mas agora por um banho de cerveja, do Toninho da venda que, mais pra lá do que pra cá, tropeçou nas pernas e despejou em mim o mais de meio copo de cerveja que ainda planejava botar goela abaixo. Trêbado, ele seguiu adiante, o copo quase vazio, sem nem notar o que havia acontecido, muito menos sobre quem havia se dado o seu desastre. No meio daquela confusão toda, ninguém parecia ter notado meu infortúnio, salvo a minha misteriosa princesa dark, que agora ria francamente, divertindo-se com a minha situação. Sem graça, devolvi o sorriso e encaminhei-me na direção dela, sob pretexto de me lavar na torneirinha da praça. Cheguei já falando, rindo, fazendo pilhéria com minha própria situação, enquanto abria a torneira, ao lado da qual ela estava.

— Nem sempre a cerveja chega como a gente espera — brinquei, enquanto jogava água sobre o short e sobre minhas pernas, onde Toninho havia derrubado a cerveja.

— Seu amigo tinha pressa, mas não tinha mais coordenação — devolveu ela, com um risinho irônico.

Adorei aquele humor! Simples e sofisticado ao mesmo tempo. Aproveitei a descontração e me aproximei um pouco mais. Só de perto pude perceber, então, que ela não era mais nenhuma criança. Devia estar na casa dos trinta, o que era incrível, porque tinha uma pele lisinha, juvenil mesmo. Eu nunca havia visto nada assim. Fiquei curioso e puxei mais conversa. Papo vai, papo vem, fiquei sabendo que ela era da cidade, e não morava mais lá havia um bom tempo. Conversamos bastante, mas fiquei sem saber como ela se chamava. Não me disse o seu nome de jeito nenhum. Assim mesmo convidei-a para bebermos algo, e saímos caminhando ao acaso, enquanto conversávamos.

— Vou inventar eu mesmo um nome pra você — eu disse. E batizei-a Flor. Era o que ela me parecia, uma flor rara, linda, madura e plenamente desabrochada, perfumada e exótica, e era o que ela seria para mim dali em diante. Quanto a mim, embora tenha dito a ela o meu nome, sem fazer mistério, ela jamais me chamou por ele. Nunca a ouvi pronunciar o meu nome, naqueles curtos quatro dias de convivência. Chamava-me sempre de meu menino. E assim ficamos combinados!

Logo ficou claro que estávamos atraídos um pelo outro. Atraídos é o modo de dizer, atraída estava ela, eu estava simplesmente siderado, fascinado por aquela mulher linda e exótica! E não desgrudei dela durante todo o carnaval.  Não sei se era o mistério que ela fazia, aliado àquela beleza toda, tão incomum, o fato é que eu nunca havia conhecido uma mulher tão fascinante. E tome beijos, abraços, mil loucuras, ela ficava acesa comigo, e me enlouquecia também, a ponto de quase perdermos o controle. Mas quando chegávamos perto do que eu imaginava ser um amor inédito, coisa que eu nunca havia experimentado antes, ela recuava.

— Não, meu menino, não! — dizia, ofegante, como que num último esforço para nos afastar do que era, na verdade, o nosso maior desejo. E então nos recompúnhamos e conversávamos um pouco, para tentar esfriar os ânimos. Uma conversa gostosa, em que ela mais escondia do que revelava. Mas logo estávamos ali, nos beijando novamente, sempre com ela me negando o tão desejado desfecho.

Minha misteriosa amiga estava hospedada na parte antiga de São Sebastião. Ao final da noite, eu a levava para casa. Ficávamos mais alguns minutos na esquina de uma ruazinha pequena, uma subida curta e não muito íngreme, que ia dar ali pro lados do cruzeiro da cidade, e que ela galgava depois de nossas despedidas. Eu havia prometido não segui-la, de modo que Flor subia tranquilamente a pequena ladeira, chegava até a outra esquina, me mandava um beijo a distância, dobrava à direita e desaparecia de minha vista.

E assim foi durante aqueles quatro inesquecíveis dias. Aos poucos começamos a nos apegar um ao outro. “Eu queria tanto ficar com você, meu menino”, dizia ela, pra logo completar com um “mas não posso, querido, não posso”, que era puro abatimento. Eu não aguentava mais aquilo. Precisava saber alguma coisa sobre ela! Onde se hospedava, qual era o seu nome verdadeiro, qualquer coisa.  Com muito jeito, consegui extrair daquela boca tão formosa o nome de sua família. Mas foi só. Fiquei pensando no que fazer com aquilo. Eu sabia a área aproximada onde ela estava hospedada. Sabia o nome da família. Sabia que ela havia nascido ali, em São Sebastião do Campo Verde... Como juntar tudo isso? Talvez um velho amigo pudesse me ajudar...Não deu outra! Bati um papo com Cabide, um mulato magrelo e alto, amigo de infância e de muitos carnavais, que conhecia tudo e todos na cidade. Mas, ainda assim, disse jamais tê-la visto antes. Estranho, Cabide conhecia tudo e todos por ali. Se a família dela era da cidade, ele deveria tê-la visto ao menos uma vez... Mas prometeu investigar e me falar depois o que descobriu.

E assim escoaram aqueles dias inesquecíveis. Até que chegamos à terça-feira gorda, que eu sabia ser um limite além do qual talvez nunca mais nos víssemos. Naquela noite consegui retê-la por mais tempo que de costume, para além, muito além das duas ou três da matina que haviam sido o nosso limite naquelas noites em que estivemos juntos. Mas a partir de um determinado momento ela ficou inquieta e não pude mais retê-la.

— Já é quarta-feira de cinzas, meu menino — disse, aflita, enquanto nos beijávamos na esquina. — Estamos na quaresma e daqui a pouco vai amanhecer, tenho de ir...

— Mas assim? — perguntei. — Assim, sem que eu tenha a certeza se voltarei ou não a vê-la,  assim sem saber o seu nome?

Ela sorriu, carinhosa, e me beijou ternamente:

— E o seu nome? — insisti — Vou ficar sem saber como se chama a mulher de quem jamais me esquecerei?

Ela sorriu outra vez, dessa vez um sorriso triste, e não falou nada. Apenas me abraçou, emocionada. Depois disse:

— Eu sou o orvalho da noite, meu menino, a flor da madrugada. Como você me chamou, assim me chame sempre, quando quiser lembrar de mim.

A seguir beijou-me suavemente os lábios e lembrou-me de minha promessa de não segui-la. Assenti em silêncio e a observei subir a curta ladeira, como fez naquelas noites de carnaval. Apenas demorou-se mais um pouco, na outra esquina, olhando-me séria. Um leve sorriso, e despareceu, dobrando à direita. Mas eu já estava de caso pensado. Jovem ainda, e rápido na corrida, em alguns passos, que mais pareciam saltos, eu já estava próximo à esquina onde ela sumia e dobrei exatamente naquele ponto. Para minha surpresa, nada! Nenhuma porta se fechando, nenhuma luz acesa, nada que denunciasse a sua presença poucos segundos antes. Apenas o cruzeiro da cidade, a cruz erguendo-se silenciosa, apontando para o céu. Voltei desapontado e confuso, e desci devagar a pequena calçada pela qual havia subido correndo momentos antes. Custei a conciliar o sono.

Ao cair da tarde, lá estava eu novamente no centro da cidade, diante de um copo de cerveja, mas dessa vez sozinho, consciente de que minha amada não apareceria mais. Estaria ela ainda na cidade? Imerso nesses pensamentos, sobressaltei-me com Cabide sentando-se à minha mesa, de repente, e pedindo outra cerveja, para bebermos juntos.

— Nem sinal de sua namorada — relatou-me, com alguma solenidade — A própria família já não está mais em São Sebastião do Campo Verde há muito tempo. Acho que a sua paixão lhe pregou foi uma peça...

Fiquei sem saber o que dizer. Cabide bateu-me no ombro afetuosamente.

— Talvez seja alguém que não possa revelar sua verdadeira identidade — aventou meu amigo. — Talvez uma mulher casada, passando o carnaval longe do marido... Mas deve estar pensando em você agora...

Virou direto seu corpo de cerveja e levantou-se (“fico te devendo uma cerva”, falou, enquanto se afastava).

Fiquei ali, sozinho, terminando aquela cerveja. Paguei a conta e, acho que pra tentar matar um pouco da saudade, atravessei o centro da cidade e fui até a esquina onde nos despedíamos todas as noites. Subi a ladeirinha, dessa vez devagar, e cheguei até o cruzeiro. Sentei-me desolado nos degraus sobre os quais erguia-se a cruz, e fiquei olhando os votos que haviam ali. Fotos de pessoas que haviam se curado e atribuíam sua cura à orações às almas, naquele cruzeiro, ou ainda outras, falecidas, cuja imagem se colocava junto ao cruzeiro, com pedidos de orações aos passantes. Uma daquelas fotos, enquadrada numa moldura e protegida por um vidro, chamou-me particularmente a atenção. Na dedicatória, encerrada em vidro, estava escrito: A Florinda, retirada brutalmente de nós, aqui, neste cruzeiro, na flor de seus trinta e dois anos, em defesa de sua própria virtude, na terça-feira gorda de 1938.  Orai por ela. Ao lado, a foto oval, amarelada, mas que trazia o belo rosto e o enigmático olhar com os quais eu havia convivido durante aquelas quatro noites, e dos quais eu jamais me esqueceria.

Racional por temperamento, inclino-me hoje a pensar em uma brincadeira de mau gosto, de uma simpática e linda aventureira, que quis confundir-me pela figura de uma ancestral idêntica a si mesma. Não sei, pode ser... Mas tão convincentes foram seus beijos, tão ternos seus abraços, que sempre que posso retorno ao Cruzeiro de São Sebastião do Campo Verde, na madrugada da terça-feira de carnaval para a quarta-feira de cinzas, e depois de uma prece silenciosa, onde apenas o coração fala por nós dois, vou-me embora, deixando uma flor e um beijo carinhoso junto ao retrato de Florinda.









PAULO ROBERTO SILVEIRA
Enviado por PAULO ROBERTO SILVEIRA em 12/02/2015
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