DR. PAULO ROBERTO SILVEIRA

VIVO DE AJUDAR AS PESSOAS  A AMENIZAREM  OS SOFRIMENTOS  DO CORPO E DA ALMA.

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A CHAVE DO CORAÇÃO
A CHAVE DO CORAÇÃO


Ao longo de minha já longa carreira de médico, tenho conhecido muitas outras histórias de vida, que aconteceram não comigo, mas com pessoas que me eram próximas, clientes, colegas, amigos... Algumas dessas histórias são surpreendentes, outras até insólitas, mas todas carregadas de um ensinamento, de um precioso material para reflexão, que têm servido para ajudar a construir, em grande parte, este ser em constante construção que eu sou, mesmo quando não aconteceram comigo. A história que vou narrar agora é particularmente cara para mim, e me foi relatada por uma artista, uma inspirada poeta, de bem com a vida, que conta hoje com 85 anos de idade.

— Quando completei meus 15 anos de idade — narra minha amiga poeta — meu pai me deu de presente de aniversário um cordão com uma chave de ouro, como pingente, e me disse que aquele a quem eu desse essa chave, ou que a conquistasse de mim, seria o homem com quem eu me casaria, o meu marido bem-amado por toda a vida. E aquilo ficou sendo um segredo nosso. Para os outros, era apenas uma joia preciosa e delicada, que eu não tirava do pescoço.

Ela conta que, então, mocinha ainda, era já muito cortejada, tinha vários pretendentes, mas nenhum deles lhe falava ao coração. Exceto um, na verdade o único que não a cortejava, o seu primo, que havia sido criado com ela até uns dez anos de idade, e depois seguiu com os pais a outro estado, para onde tiveram de se mudar. Ela conta que esse primo era o seu maior amigo, e que jamais o esqueceu. Morria de saudade e, muitas vezes, chorava no silêncio da noite a sua falta. Quando, alguns anos depois, ele retornou com a família à cidade, já um belo rapaz, e ambos se reencontraram muito alegres, ela se deu conta de que, na verdade, sempre o amara. Profundamente. Que era ele o jovem homem para o qual desejava entregar a chave de seu coração. Mas faltava um detalhe...

— Seria preciso que ele quisesse receber essa chave — conta nossa poeta. — Mas não parecia interessado. Tudo o que ele desejava era nunca mais ficar longe da sua melhor amiga, que era como me considerava. E eu, para não constrangê-lo, e nem a mim, evitei demonstrar esse afeto, guardando-o comigo mesmo, e tentando esquecer daquilo o quanto pudesse.

O tempo passou e minha confidente não conseguia se interessar por mais ninguém. Então, quando ela já contava com 25 anos de idade, “começando a ficar velha pra casar, segundo os costumes da época”, conta ela, sorrindo, o seu pai a aproximou de um outro homem. Um bom partido, bem mais velho do que ela, um comerciante poderoso e de uma família muito tradicional.

— Meu pai desistiu de esperar que eu me encantasse com alguém, e agiu segundo os costumes das famílias abastadas daquele tempo, acertando um casamento para mim, em acordo com a família do noivo. A poeta que há em mim desapontou-se. Decidi então ser realista e aceitar o que propunha meu querido pai. Celebrou-se o noivado e a data do casamento foi marcada.

Mas certa noite, num baile de máscaras do Copacabana Palace, o último que ela frequentaria ainda solteira, um fato inusitado aconteceu. Um jovem mascarado surgiu, como que do nada, e num gesto rápido e certeiro arrancou da moça o cordão e a chave, que nunca haviam saído antes de seu pescoço. E desapareceu no salão.

— Fiquei desesperada — conta ela. — Eu pretendia levar comigo aquela chave até o fim da vida, como testemunha de um destino luminoso que não tinha podido se cumprir. Mas agora...

E o tempo passou rápido. Com a data do casamento se aproximando rapidamente, ela resolveu, enfim, contar ao primo o seu segredo, não sobre o amor não correspondido que devotava a ele, mas sobre a chave que ganhara do pai, e o que ela simbolizava, e que havia sido tão bruscamente arrebatada, levando junto o resto de um sonho que ela contava alimentar para sempre. Pelo menos ele, seu maior amigo, a compreenderia bem, mesmo que não tivesse ideia de que ela havia aberto mão do único homem que amara na vida, e que esse homem era ele próprio. A princípio, ela o supôs surpreso com aquela poética metáfora da chave. Mas rapidamente seria a vez dela própria se surpreender.

— Por acaso, não seriam esta chave e este cordão o que procuras? — disse ele, abrindo a mão e mostrando à prima a chave arrebatada no baile de máscaras. — Sempre te amei, minha querida, mas tive de roubar a chave que trazias já havia tanto tempo junto ao coração, sem que eu soubesse ainda o que ela significava, mas na esperança de conseguir atrair tua atenção e arrebatar com ele o teu amor. Por favor, não te cases!

— Tomada de uma infinita alegria, num impulso e sem nenhum pudor, beijamo-nos apaixonadamente, e eu agora sabia que o mistério da chave do meu coração se cumpriria, afinal. Desmanchei imediatamente o noivado e desisti do casamento com o escolhido por meu pai, para entregar-me de corpo e alma ao escolhido de meu coração.

Apesar da revolta nas famílias e da incompreensão de todos, nossa então jovem poeta casou-se com o homem que arrebatou o direito de ser o dono do coração cuja chave agora tinha em mãos. Viveram juntos o seu amor por muitos anos, duas filhas e vários netos, até que a morte o levou, apenas cinco anos antes de ela me contar essa linda história.

— Eu espero pacientemente a minha hora — finalizou minha amiga poeta, emocionada. — Ele agora tem nas mãos uma outra chave, de um ouro ainda mais puro e reluzente, com a qual me abrirá as portas da eternidade. Estou pronta. No céu certamente há também um baile de máscaras. Em breve estaremos juntos outra vez, e agora serei eu a arrebatar a chave que ele guarda consigo, para unirmos definitivamente os nossos corações num só.
PAULO ROBERTO SILVEIRA
Enviado por PAULO ROBERTO SILVEIRA em 12/02/2015
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