DR. PAULO ROBERTO SILVEIRA

VIVO DE AJUDAR AS PESSOAS  A AMENIZAREM  OS SOFRIMENTOS  DO CORPO E DA ALMA.

Textos

CARTAS DE HAMBURGO UMA HISTÓRIA DE AMOR E MISTÉRIO !
CARTAS DE HAMBURGO  
UMA HISTÓRIA DE AMOR E MISTÉRIO

Como todo estudante na Europa — quando cursava medicina na Universidade do Porto — eu precisava de dinheiro. E como faziam muitos estudantes brasileiros, lá fui eu para a Alemanha, em busca de trabalho. Era 1972, ano das Olimpíadas e fiquei um tempo em Hamburgo, trabalhando na Tchibo, uma fábrica de plásticos.  Acabei voltando lá outras vezes, para ganhar algum dinheiro. Era sempre nas férias, e eu já havia trabalhando em outros lugares, nesses períodos. Lavando pratos num restaurante espanhol, por exemplo, ou ralando numa fábrica de produtos químicos. Até que encontrei a Tchibo e me adaptei tão bem, que acabei tendo vaga cativa, voltando lá para trabalhar sempre que tirava férias. Nessas ocasiões, então, ficava hospedado numa  student haus, uma espécie de república de estudantes, onde convivi com muita gente bacana e fiz muitos amigos. Alemães, brasileiros, portugueses, marroquinos, uma verdadeira babel, o mundo quase inteiro parecia estar representado ali.

Mas em meio a essa verdadeira ONU de estudantes na qual eu vivia em Hamburgo, dentro e fora da student haus, uma pessoa em especial marcou-me profundamente, e para toda a vida. Trata-se de Maria de Fátima, uma portuguesa que, na época, era a responsável pela cozinha restaurante da Associação Portuguesa de Hamburgo. Eu nunca me adaptei muito bem à cozinha alemã, de modo que comia com frequência naquele restaurante, com outros estudantes, sobretudo brasileiros, que encontravam conforto e satisfação na comida da terrinha, talvez a mais saborosa de toda a Europa...  E foi lá que conheci a linda Maria de Fátima, apresentada por um amigo comum, que chamávamos Pastor (ele realmente se tornou pastor de uma igreja reformada, tempos depois, e naquela época era estudante de medicina em Coimbra). Simpatizei com ela imediatamente, e dali nasceu uma amizade bonita e delicada, que logo se transformou... em amor! Maria de Fátima era mais velha do que eu (mais de 30 anos de idade, naquela época) uma moça descasada, sem filhos, e uma mulher simplesmente encantadora.  Não era só pela beleza física. Havia nela algo de diferente, que eu descobria aos poucos, e que ia me cativando cada vez mais. Estávamos juntos sempre que podíamos. E terminamos nos apegando muito um ao outro, de uma forma que nenhum dos dois esperava. Quando retornei a Portugal, ela vinha de Hamburgo, para ver a família e encontrar-me. Passava comigo alguns dias e chegou a me levar à aldeia, perto do Porto, onde moravam seus familiares, a fim de me apresentar aos pais. Aquilo estava ficando sério...

Vivemos esse amor por dois anos. Durante esse período, alternávamos nossa convivência entre o Porto, em Portugal, e Hamburgo, na Alemanha (para onde sempre voltava, nas férias, para trabalhar na Tchibo), e viajávamos bastante, aproveitando a vantagem de, na Europa, tudo ser muito perto, e de diferentes culturas e países estarem a tão poucos quilômetros de distância de qualquer lugar em que estivéssemos. Foram dois anos de muita alegria, inesquecíveis, que eu cheguei a imaginar que se transformariam em algo mais consistente, porque ficarmos juntos estava ficando cada vez mais natural. Aparentemente éramos feitos um para o outro. Mas em meados de 1975, pouco antes de meu retorno definitivo para o Brasil (que aconteceria no início de 1976), ao final do curso de medicina na Universidade do Porto, uma coisa imprevista aconteceu...

Maria de Fátima ainda estava em Hamburgo, preparando-se para vir à sua aldeia, ver a família, e dali ao Porto, para ficarmos juntos por um tempo. Mas pouco antes de ela vir, telefonou-me, dizendo que precisava me falar uma coisa muito importante. Cheia de mistério, fez questão de marcar nosso encontro em um restaurante, o Café Guanabara. Eu não entendi nada do porquê de todo aquele mistério, mas, claro, aceitei a proposta. Na hora marcada eu estava lá, numa mesa do Guanabara, aguardando por minha amada, mas agora tenso, sem saber o que esperar daquele encontro. E esperar foi o que eu mais fiz. Ou, por outra, a única coisa que realmente fiz. Esperei, esperei, esperei... por horas.  E minha portuguesinha não veio.  Várias vezes perguntei, na administração do café, se alguém telefonara para mim, se havia algum recado de última hora... Mas não havia. O silêncio era a minha única resposta. Nenhum recado, nenhuma justificativa ou mensagem de cancelamento, nada. Depois de esperar muito, fui-me embora para casa. Saí dali desapontado e triste. E preocupado. Teria acontecido alguma coisa com ela? Não. Alguma coisa em mim dizia que nada de grave havia ocorrido. Que ele estava bem, e de alguma forma aquilo me confortava. Por outro lado, o mistério permanecia. Por que teria minha amada pedido por esse encontro, assim em território neutro, dizendo que tinha algo de importante, de muito importante a me contar, indicando ela mesma o local do encontro e simplesmente tendo sumido no ar?

O fato é que nunca mais a vi. Nunca mais as vi e nunca mais tampouco tive qualquer notícia dela. Assim mesmo. Sem aviso, de repente, sem uma despedida. É mais ou menos como se eu estivesse num baile, dançando com uma dama adorável, ao som de uma melodia deliciosa, e de repente a música parasse. Como se eu olhasse em torno e não visse mais a orquestra. E quando desse por mim, minha dama houvesse desvanecido em meus braços, como num encanto, desaparecido para sempre. E eu ficasse sozinho no salão, enquanto os casais dançavam em torno de mim, sem que se ouvisse mais qualquer música, alheios à minha desventura... Tentei encontrá-la, telefonando para a Associação Portuguesa de Hamburgo, mas ela já havia viajado para Portugal. Provavelmente a caminho de sua aldeia natal, para ver a família, e lá não havia telefone pelo qual nós pudéssemos nos comunicar, naquela época. De modo que, por ora, não tive escolha senão aguardar por uma comunicação da parte dela. Mas essa comunicação nunca veio.

Com o tempo, deixei aquilo de lado, tanto quanto pude, embora muito a contragosto. Afinal, foi ela quem marcou o encontro e foi ela quem faltou a esse mesmo encontro. Foi ela, também, que não me deu nenhuma satisfação a respeito daquilo. Fiquei magoado com a história, de modo que firmei o pé e não a procurei mais. Ela que me procurasse, porque era ela que me devia satisfações. Já não me preocupava mais com alguma coisa ruim que pudesse ter-lhe ocorrido. Algo dentro de mim me tranquilizava quanto àquilo. Eu havia mesmo é ‘levado um bolo’, como se dizia na época. E o que me deixava desorientado é que aquilo não combinava com ela. Deve ter tido um motivo muito sério para me ‘dar o bolo’ e não me comunicar nada a respeito. Resolvi não insistir mais.

Tendo terminado o curso de medicina na Universidade do Porto, voltei ao Brasil e tentei não pensar mais naquilo. Os anos passaram, dediquei-me sem reservas à medicina, procurando estabilizar-me na profissão, sempre estudando muito, me aperfeiçoando... Até que me dei conta de que não havia resolvido na minha cabeça aquela questão do sumiço repentino de minha amada portuguesinha. Eu precisa fechar aquele capítulo de minha vida! Não se termina uma linda história de amor assim de repente, sem explicação, com a gente esperando sem resultado em um café, por um encontro marcado justamente com aquela que não comparece ao local que ela própria escolheu... e não aparece nunca mais! Não dá notícias, como se tivesse se desmanchado no ar! Resolvi que aquilo não poderia ficar assim. De um jeito ou de outro eu iria arrumar uma forma de colocar um ponto final naquela história, para que aquilo não me perseguisse mais, como um fantasma, e pudesse, efetivamente, entrar para a minha história, o meu passado, sem mistérios, de modo que eu retomasse a minha vida normalmente. Eu já havia me casado, já tinha filhos e estava feliz com minha família. Era preciso deixar tudo aquilo definitivamente para trás. E pra isto, eu precisava pelo menos saber o que aconteceu, para assim dar um final àquela história e me ver enfim livre dela.

Comecei, então, um verdadeiro trabalho de detetive. Já eram tempos da Internet, de modo que, por meio das redes sociais, fui conseguindo recuperar o contato com alguns colegas e amigos daqueles tempos. Busquei por contatos antigos, em Portugal, na Alemanha e no Brasil, renovei todos os que pude, recolhi com eles as informações que podia conseguir. Mas talvez tenha deixado passar tempo demais. A sensação que eu tinha, ao recolher fragmentos de informação aqui e ali, era a de que as notícias que porventura tivessem subsistido começavam a se desmanchar no tempo, como papel guardado. Tudo o que consegui foi reunir emails sempre reticentes, num dossiê que hoje chamo Cartas de Hamburgo. Alguns amigos achavam que a haviam visto, mas não tinham certeza daquilo. Alguém disse que Maria de Fátima havia aberto um café, ela mesmo, mas ninguém sabia onde, e as informações tornavam-se cada vez mais esparsas.Um de meus correspondentes, um brasileiro de nome Ricardo, que ficara morando na Alemanha mesmo, procurou levantar a localização da Associação Portuguesa de Hamburgo, onde talvez pudéssemos encontrar Maria de Fátima. Mas toda busca deu em nada. Conseguimos o endereço de onde ficava a Associação, mas dela mesma, ninguém sabia. Aparentemente, ela deve ter se extinguido há muito tempo, e ninguém mais lembrava de sua existência. Com essa notícia, escoaram-se minhas últimas esperanças de localizar minha ex-namorada. “Venha à Alemanha de férias, Paulo”, escreveu Ricardo em um de seus últimos emails. “Procuraremos juntos por ela, refazendo passo a passo, revisitando todos os lugares de referência, até chegarmos a uma pista conclusiva”. Fiquei tocado com a sua oferta, mas àquelas alturas parecia-me loucura tirar férias e ir à Alemanha em busca de alguém que nem mesmo lá, ou em Portugal, ninguém mais sabia onde andava...

Estava a ponto de desistir de tudo outra vez, quando reencontrei um velho amigo, dos tempos de Portugal. O mesmo amigo que chamávamos Pastor (e que agora já era, efetivamente, pastor de uma igreja) que estudara medicina em Coimbra, e que me apresentara a Maria de Fátima. Corria o ano de 1985, e foi uma alegria reencontrá-lo e sairmos juntos para almoçar. Na pauta, claro, Maria de Fátima. E qual não foi a minha surpresa quando ele me deu notícias sobre ela! Surpresa e tristeza. Soube que minha amada havia assumido o restaurante da Associação Portuguesa de Hamburgo, e que algum tempo depois do nosso telefonema, e do encontro que acabou não se concretizando, no Café Guanabara, ela voltou para o ex-marido.  Então era isso que ela queria me dizer naquele encontro frustrado no café. Ela iria me comunicar que não seríamos mais aquele casal tão feliz, que namorava pelas ruas de Hamburgo, pelo Porto e suas redondezas, pela aldeia onde ela me fez conhecer seus pais... Resolvera voltar ao casamento e deixar de lado aquele amor que talvez ali começasse a parecer-lhe uma fantasia, uma digressão romântica com um rapazinho mais novo...

Realmente, aquilo me entristeceu. Mas agora, mais maduro, um médico experimentado, um homem casado e feliz, chefe de família, acreditei entendê-la. Que futuro teria o nosso amor, naqueles dias de mudança, em que eu me preparava para retornar ao Brasil, começar minha vida profissional, minha carreira de médico... que futuro? Ela não poderia vir comigo para o meu país, pelo menos não de imediato. Será que nossa relação resistiria à separação, mesmo que temporária? Será que essa separação seria mesmo... temporária? Acreditei compreender sua atitude, e mesmo entristecido resolvi colocar uma pedra sobre aquilo e considerar como finalmente encerrada aquela história.

Foi há pouco mais de cinco anos que um novo encontro com Pastor acrescentou um pouco mais de mistério àquela história que eu pensava haver resolvido. Desta vez, vi meu amigo em uma reunião pra lá de fraterna, de ex estudantes do Brasil em Portugal. Aquilo acontecia de vez quando como uma alegre oportunidade de encontrarmos colegas daquele período, com os quais havíamos convivido na terrinha nos tempos de estudantes universitários. Conversa vai, conversa vem, Pastor me chamou num canto:

— Paulo, descobri recentemente que, já naquela época, Maria de Fátima conseguiu realizar o sonho de ser mãe... Teve uma menina...

— Que legal, Pastor! — eu disse, num falso entusiasmo — que bom que ela pôde realizar esse sonho...

Aquilo só confirmava minhas considerações sobre os motivos de minha amada escolher sair de minha vida de estudante jovem e ainda sem uma vida profissional, e voltar para o marido. Quanto tempo teria ela de esperar, até que pudéssemos ter um filho? Naquela época, ter filhos a partir de uma certa idade poderia constituir sério risco para a gestante, ou mesmo um projeto quase impossível de ser concretizado. Refleti aquilo em voz alta, um pouco comigo mesmo, um pouco para comentar a notícia que Pastor acabara de me dar. Ele fez uma careta de dúvida e coçou inquieto a cabeça. Eu conhecia aquele jeito do meu amigo, que sempre fazia isso, quando se sentia incomodado com alguma que havia sido dita pela metade.

— O que foi, Pastor? — perguntei-lhe.

Pastor hesitou. Resmungou alguma coisa que não ouvi direito. Mas eu insisti:

— O que foi, rapaz, diga o que está pensando!

— Pode ser que haja algum engano nessa história, Paulo. Mas... numas conversas transversais com uma amiga comum, de Hamburgo, soube que quando Maria de Fátima voltou para o marido já estava grávida. Aliás, parece que já estava grávida quando ligou pra você, a fim de combinar o encontro no Café Guanabara...A decisão de voltar ao antigo casamento parece que só veio depois daquilo...

Fiquei mudo de assombro. Então aquela coisa importante que ela tinha a me dizer, no encontro do Café Guanabara, ao qual talvez não tenha comparecido por não ter tido coragem de dizer, não era que iria me deixar. Não era que iria voltar para o ex-marido. Era que estava grávida! E possivelmente grávida de mim! Salvo melhor juízo, eu era o pai da filha que ela gerou e deu à luz, naqueles longínquos anos 1970! Meu amigo foi um pouco mais longe e contou-me que viu a criança, quando ela já estava maiorzinha:

— Não posso negar, Paulo. A carinha redonda, o formato do nariz, os cabelos crespos...ela parecia mesmo com você...

E acrescentou, brincalhão:

— A diferença é que ela era bonitinha, meu caro!

A piada não me relaxou e continuei naquele quase estado de choque. Pastor notou a minha agitação:

— Pode haver alguma informação truncada, Paulo — amenizou — e posso tê-la achado parecida com você por pura sugestão... não leve as coisas assim tão a sério...

Não, eu sabia que era verdade. O mais provável era que eu fosse pai de uma menina, hoje uma mulher já na maturidade, e só tenha sabido disto agora. Toda aquela discussão anterior voltou à minha mente. Onde, diabos, estava Maria de Fátima? Que cidade, que país? Por que nunca me falou daquela gravidez? Por mais jovem que eu fosse, tinha o direito de saber, e tinha o direito de resolver, junto com ela, o que fazermos pela criança...

De lá para cá, tenho convivido com um sentimento contraditório. Por um lado, a ideia de que aquela linda história de amor é algo que teve começo, meio e fim. E que já está resolvida na minha cabeça e em meu coração, como um momento fundamental em minha vida, que havia contribuído para que eu construísse o ser humano que sou hoje. Por outro lado, martela em minha consciência a dúvida que me diz que pode haver hoje, em alguma parte do mundo, uma moça, uma mulher, que é minha filha, e que eu jamais conheci, e que talvez nem conheça ela própria a sua verdadeira história, nem saiba que eu sou seu pai. Eu hesito ainda, mas estive pensando... e concluí que talvez seja o caso de eu examinar com carinho a ideia de meu amigo Ricardo, e arrumar um tempo para viajar a Hamburgo, e começar a percorrer cada passo do caminho que me levou a este enigma. Por ora, no entanto, tento afastar esta ideia e apenas folheio ocasionalmente as páginas de minhas cartas de Hamburgo, sem saber direito o que fazer com elas.















PAULO ROBERTO SILVEIRA
Enviado por PAULO ROBERTO SILVEIRA em 12/02/2015
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